Imagem meramente ilustrativa – (Foto: Pixabay)

As projeções se dirigem em três pontos comuns: mais calorchuvas mal distribuídas e maior probabilidade de tempestades intensas no Centro-Sul e Norte do país.

Temperaturas acima da média

De acordo com Raidel Báez Prieto, especialista em Riscos Climáticos da Howden Re Brasil, os modelos climáticos apontam para um verão “com temperaturas acima da média em quase todas as regiões”.

O cenário é reforçado por Andrea Ramos, meteorologista, que destaca que os mapas de anomalia indicam predomínio de vermelho em quase todo o território — sinal de calor mais intenso do que o normal.

O Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste devem experimentar noites mais abafadas, resultado da combinação entre temperaturas máximas elevadas, alta umidade e resfriamento noturno dificultado. Em capitais litorâneas como Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Fortaleza, a sensação térmica pode ultrapassar os 40 °C em dias de maior aquecimento.

O pesquisador Humberto Alves Barbosa, professor e especialista em clima, ressalta que este verão tende a ser “ainda mais quente do que o do ano passado”, intensificando ondas de calor e ampliando o risco de períodos secos prolongados.

Chuvas irregulares

Apesar de o verão ser, climatologicamente, a estação mais chuvosa, a distribuição das precipitações será bastante desigual, avaliam os especialistas.

Norte e parte do Nordeste: volumes acima da média

A influência da La Niña — ainda presente em dezembro, mas enfraquecendo ao longo do trimestre — deve favorecer mais chuva no Norte, especialmente em Roraima, norte do Amazonas e noroeste do Pará.

Andrea reforça que o extremo norte terá um padrão bem definido de chuvas intensas, impulsionado também pelo comportamento do Atlântico e de frentes que descem do Hemisfério Norte.

Interior do Nordeste: estiagem persistente

Um dos sinais mais fortes nos modelos é o da manutenção da seca no interior do Nordeste, incluindo áreas do Ceará, Piauí e norte da Bahia, já classificadas por pesquisadores como zonas em transição para clima árido, ultrapassando o histórico semiárido.

Nesse trecho, as chuvas devem ficar bem abaixo da média, reforçando as dificuldades hídricas da região.

Centro-Oeste e Sudeste: chuvas frequentes e risco de tempestades

O Sudeste e o Centro-Oeste tendem a repetir o padrão observado no fim da primavera, com chuvas acima da média e a atuação das Zonas de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) — longas faixas de nebulosidade que provocam dias seguidos de instabilidade.

A combinação entre calor intenso, umidade amazônica e frentes frias que se deslocam rapidamente pelo Sul cria o ambiente perfeito para tempestades de forte intensidade, sobretudo no interior de SP, MG, GO e no DF.

Sul: chuvas abaixo da média e calor elevado

O Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina devem enfrentar um verão com volumes reduzidos de chuva, típicos de anos com La Niña fraca. O risco de estiagens é maior no território gaúcho, já fragilizado por eventos extremos recentes.

Humberto Barbosa destaca que a região Sul viverá “muita irregularidade”, com períodos de tempo seco intercalados por episódios de chuva intensa — uma combinação que aumenta o risco de impactos no solo, enchentes localizadas e danos ao setor agrícola.

Risco elevado de eventos extremos

Os especialistas são unânimes: o verão 2026 terá mais episódios extremos.

Entre os eventos previstos:

  • Tempestades severas, com granizo e vendavais, especialmente no Sudeste, Centro-Oeste e Sul.
  • Chuva torrencial em grandes centros urbanos, favorecendo alagamentos e deslizamentos em regiões serranas.
  • Ondas de calor prolongadas em áreas do Centro-Oeste, interior do Sudeste e Matopiba.
  • Veranicos no Sul e parte do Centro-Oeste, com impacto direto no setor agrícola.

Barbosa explica que o aquecimento da atmosfera — associado ao fato de que a temperatura média global já ultrapassa 1,5 °C — cria condições para extremos simultâneos: “áreas muito secas coexistindo com eventos de chuva extrema”.

Impactos para o agronegócio

O setor agrícola deve se preparar para um verão de alto risco climático.

Sudeste, Centro-Oeste e Matopiba terão boa reposição hídrica, favorecendo o desenvolvimento inicial das culturas.

No Sul, especialmente no RS, persiste o alerta para déficit hídrico, que pode afetar produtividade.

O calor acima da média aumenta a pressão de pragas e doenças, além de elevar o risco de acamamento por vento e erosão.

Janelas de estiagem podem afetar o norte de MT e áreas do interior do Nordeste.

Raidel destaca que a adoção de “seguros climáticos, manejo preventivo e escalonamento de plantio” será essencial para mitigar prejuízos em um verão com tanta variabilidade.

La Niña fraca e neutralidade

A leitura dos três meteorologistas sobre as temperaturas nos próximos meses é a mesma:

  • Dezembro ainda é influenciado pela La Niña fraca, com maior impacto no Norte, parte do Nordeste e Sul.
  • Janeiro marca o enfraquecimento do fenômeno.
  • Fevereiro e março tendem à neutralidade, reduzindo a previsibilidade e colocando maior peso no efeito do aquecimento dos oceanos e da circulação atmosférica local.

Com a neutralidade, passam a dominar fatores como:

  • aquecimento global dos oceanos,
  • comportamento do Atlântico,
  • interações com sistemas do Hemisfério Norte,
  • dinâmica térmica e umidade acumulada.

O que esperar nas capitais litorâneas?

Sensação térmica elevada será regra. Além do calor, o excesso de umidade tende a provocar:

  • noites mais quentes,
  • maior desconforto térmico,
  • potencial aumento no consumo de energia,
  • maior risco para grupos sensíveis (idosos e crianças).

Recomendações para a população

Os meteorologistas reforçam medidas de segurança e prevenção:

  • acompanhar alertas oficiais e evitar áreas de risco durante tempestades;
  • reforçar hidratação e proteção solar durante ondas de calor;
  • atenção redobrada em locais sujeitos a alagamentos, deslizamentos e descargas elétricas;
  • planejar deslocamentos considerando a maior variabilidade do clima;
  • para produtores rurais: investir em monitoramento climático, manejo preventivo e seguros paramétricos.

Um verão complexo e desafiador

A combinação de calor extremo, variabilidade atmosférica e influência de fenômenos oceânicos faz do verão 2026 uma estação de alta complexidade climática.

Em um cenário de neutralidade no ENSO e aquecimento global acentuado, o país deve enfrentar meses de chuva irregular, extremos simultâneos e riscos elevados, colocando meteorologistas e autoridades em alerta máximo.