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Andrés Sanchez de saída do Corinthians: “Nunca mais volto ao futebol”

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Andrés Sanchez, um dos presidentes mais importantes e simbólicos da história do Corinthians, agora representa o fim de uma era no clube paulista. Seu primeiro mandato como presidente foi em 2007, mas Andrés já exercia cargo diretivo na base do Timão em 1994. Desde então, esteve sempre perto do futebol, incluindo uma passagem pela CBF, entre 2011 e 2012, e diversos cargos dentro do clube até a atual gestão, que começou em 2018.

Tudo isso agora é passado para ele. Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, o polêmico dirigente abriu o coração. Andrés se mostra cansado do futebol, que para ele ficou chato, caro e perigoso, e promete não voltar mais ao clube de Parque São Jorge como dirigente.

Em sua despedida, Andrés é um misto de humildade, ao pedir desculpas e admitir erros, e orgulho, ao citar o que considera seus grandes feitos: a construção da Neo Química Arena, do CT Joaquim Grava e a contratação de Ronaldo Fenômeno.

A soma de tudo isso é um Andrés de ‘saco cheio’, ferido por ingratidões e certo de que sua trajetória como gestor no alvinegro paulista acabou. Ele se licenciou do cargo em 11 de novembro —a eleição do próximo presidente acontece no dia 28 de novembro e o eleito assume o clube em janeiro de 2021.

De Corinthians, na parte futebol, acabou meu ciclo. Vou ser sócio, frequentar o clube, ser torcedor como muitos milhões de torcedores. É pedir desculpas para aquele que acha que eu errei e agradecer aquele que me apoiou. Eu tenho certeza de que errei, mas tenho certeza de que eu acertei muito mais

Andrés Sanchez

Hoje, você está aqui no CT do profissional. Fui eu que fiz. Você foi no CT da base. Fui eu que fiz. Você vai na Arena. Fui eu que projetei. Sem falar que trouxe o Ronaldo, sem falar os títulos que nós ganhamos. E perdemos também. Então, tem acertos e os erros como em qualquer lugar da sociedade

Andrés Sanchez

“Não tenho mais paciência para isso”
Andrés, inclusive, promete não participar em nada da gestão de Duílio Monteiro Alves, seu diretor de futebol que é candidato à presidência do Corinthians. “Não, não volto mais, não. Eu tenho consciência que eu não volto mais. Tem um limite na vida. Eu estou há 20 anos nisso”.

“Eu acredito que o Duílio é muito mais competente para tocar praticamente sem ajuda minha”, avisou.

Um dos motivos para isso é sua opinião sobre o futebol atualmente: “É muito mimimi, é muito disse-me-disse, é muito muita onda. Você vende jogador, tem esquema. Você compra jogador, tem esquema. Você não põe para jogar, tem esquema. Você contrata um treinador, tem esquema. Você manda embora, tem esquema. Tá insuportável, cara. E eu também não tenho mais paciência para isso”.

 

Andrés vai voltar a vender fruta. Com orgulho
Impaciente com o futebol, Andrés Sanchez vai deixar o futebol e promete voltar a cuidar dos negócios da família. Filho de imigrantes espanhóis, ele trabalhou dos 12 aos 17 anos como feirante em uma banca de frutas de seu pai. Aos 20 anos, foi admitido como gerente de uma empresa de embalagens de um primo, da qual veio a se tornar sócio.

“Vou trabalhar nas empresas da minha família, como eu sempre fiz. Eu sempre trabalhei, sou de família de imigrante que sempre trabalhou. Se tem, nesse país aqui, quem trabalha muito são os nordestinos e as famílias de imigrantes, que são grande maioria”, disse.

“Vieram aqui e fizeram esse país. Então, vou voltar a trabalhar, normal. Minha vida segue normal, torcendo com alegria e com tristeza e sempre torcendo para o Corinthians. Eu sou sócio de umas empresas na minha família e vou voltar a trabalhar nas empresas. Empresa de frutas, embalagens, tudo isso aí. E tem box no Ceasa, em mercados municipais. Vou trabalhar como brasileiro”.

 

Futebol gourmet
Nos ‘versículos de Andrés’, uma frase se destaca: “futebol está caro, perigoso e chato”: “Cuspiram na minha cara quando nós caímos (2007), pô. Já fui ameaçado até de morte. Um dia essa ameaça vai virar realidade. Estamos indo para esse caminho”.

Por outro lado, ele vê o futebol chato, bem diferente de quando assumiu a presidência do Alvinegro pela primeira em vez, em 2007. “Hoje é mais difícil. Imprensa, redes sociais e o jogador… A cada ano que passa, está mudando o estilo de jogador”, contou.

“Hoje, é jogador de videogame, de WhatsApp. Antigamente, tinha o baralho, tinha a resenha, e isso está mudando bastante. Como todo mundo no planeta está mudando. O futebol é reflexo da sociedade”.

Arena x Pacaembu
Andrés Sanchez não esconde que voltou à presidência do Corinthians para resolver o pagamento da Neo Química Arena. Na visão dele, o seu ex-aliado Mario Gobbi, que foi presidente do Corinthians depois dele e hoje é candidato da oposição nas eleições deste ano, ignorou essa questão nos três anos de seu mandato.

Por sua vez, Andrés se orgulha de suas negociações para o pagamento da Arena em seu último mandato. Ele considera o feito um “divisor de águas” da história do clube. “Sobre a Arena, o Corinthians vai ser outro clube a partir do ano que vem”.

“O grande problema do Corinthians nos últimos anos foi não ter a receita do estádio. Vai vir mais dinheiro novo, vai vir dinheiro que você está há seis anos sem ter. No mínimo 50% da receita da Arena vai vir para o clube”, avisou.

Ettore Chiereguini/AGIFEttore Chiereguini/AGIF
Cutucão aos críticos
Tem que pagar a Arena, não foi feita de graça. Uns babacas aí falam que era grátis, presente, mas a Arena está sendo paga. E é a única arena do Brasil, das 12 feitas no Brasil [que está sendo paga]. Das 12, hein? Não são 10 de Copa do Mundo não, das 12

Andrés Sanchez

A única que pagou e está pagando é a do Corinthians. Vai ver quem pagou uma prestação… Seja Maracanã, seja Allianz Park, seja a do Grêmio e a do Inter. Qualquer um… Do Athletico do Paraná. Vê quem pagou um tostão. Mas só se fala no Corinthians

Andrés Sanchez

 

Andrés Sanchez deixa o Corinthians com o sentimento de missão cumprida por conta da Neo Química Arena. O dirigente projetou, participou da construção e agora encabeçou tanto a venda dos naming rights quanto o pagamento de grande parte da dívida com Caixa Econômica Federal e Odebrecht.

Por conta disso, Andrés sente uma pontada de ingratidão quando ouve um corintiano dizer que prefere o Pacaembu, estádio onde o Timão conquistou grandes títulos, à Arena de Itaquera. “É uma decepção muito grande”.

“Saudades eu também tenho, mas dizer que prefere estar no Pacaembu à Arena? Pô, fazer xixi em pé, a tua esposa ia no banheiro do Pacaembu onde? Não tinha um camarote decente, não tinha uma cadeira decente e o cara acha que está tudo tranquilo. Não tinha uma lanchonete decente… Mas cada um tem seu gosto e tem que respeitar o gosto do próximo. Mas que me decepciona, me decepciona”.

 

Novos “Ralfs e Paulinhos” nunca mais
Além da Arena e de Ronaldo, o presidente orgulha de contratações chamadas de “achados” no futebol. Ralf e Paulinho, por exemplo, foram contratados de Grêmio Barueri e Bragantino e renderam ao Corinthians dentro e fora de campo. Paulinho foi titular da seleção brasileira em Copa do Mundo e chegou a defender o Barcelona. Tudo graças ao Corinthians.

Questionado por não ter repetido o feito em sua última gestão, Andrés justifica que a falta de paciência do torcedor e da imprensa impediu novos “Ralfs e Paulinhos”. “Não é que é difícil. É que hoje o corintiano e a imprensa não têm a paciência que tinha em 2008”.

“Começamos a montar um time em 2008. Jogamos 2008, 2009, 2010. Começamos a reformular o time e, em 2011, e montamos o time que foi campeão brasileiro. No time campeão da Libertadores, só veio o Romarinho. E no campeão Mundial, só veio o Guerreiro. Então, o time estava montado desde o final de 2010. E você trazia jogadores desconhecidos e dava tempo para o atleta”.

“Hoje, não. Hoje o jogador chega e tem que fazer três gols no jogo seguinte. Eu dou exemplo do Felipe zagueiro, que ficou dois anos e meio e nem treinava com o grupo. Hoje, é um dos melhores zagueiros do mundo. Nós chegamos num patamar em que a exigência é muito maior e por isso nós perdemos grandes oportunidades com grandes atletas”.

Preconceito pelo português errado
Como presidente do Corinthians, Andrés negociou grandes contratos, como a construção e os pagamentos da Neo Química Arena. Também fez contratações de impacto, como a de Ronaldo Fenômeno. Tudo isso sem estudos. Ele aprendeu com os negócios da família. Diferentemente de muitos críticos que, nas palavras dele, não “administram nem a emprega em casa”.

O problema é que, para Andrés, o Brasil é um país preconceituoso. O dirigente sentiu pelas inúmeras vezes em que foi chamado de analfabeto por jornalistas e profissionais do futebol, mas faz questão de dizer que, enquanto é chamado de analfabeto, um economista e professor de universidade estadual quebrou o Palmeiras —é uma referência à gestão de Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do rival entre 2009 e 2010.

“Comercialmente, você aprende no dia a dia. Mas seria excelente você também ter a teoria. Então, eu falo para você: hoje me faz falta uma faculdade, seja ela de que área for. Ter uma formação, um diploma, é importante na vida de qualquer pessoa. Na minha não é diferente. Só que infelizmente passou”.

“Uma das coisas [pelas quais] pegam muito no meu pé, queira ou não queira, é não ter um curso universitário. Por eu não falar o português corretamente. É um país preconceituoso infelizmente”.

 

“Na feira, no mercado municipal, na Ceagesp, no box no Ceasa, minha família dá mais de três mil empregos diretos. E tem gente aí que malemá administra a empregada de casa. É óbvio que o estudo me faz falta. E faz falta pra qualquer pessoa. Só que eu acordava às três horas da manhã para ir trabalhar todo dia. E também não gostava muito de estudar… Já aproveitava que acordava de madrugada para não ir para a escola. Fiz o ginásio mal feito. Eu não tenho vergonha de falar isso para ninguém. Aliás, eu tenho orgulho. Eu tenho mais do que mereço. Tenho minha filha no quarto ano de medicina, meu filho se formou em propaganda e marketing. Dei à minha família oportunidades que eu não tive.”

Elogiado pelos rivais
Andrés Sanchez diz que conquistou até os torcedores rivais. Segundo ele, por conta de sua gestão do Corinthians e do perfil de dizer o que pensa sem medo. Ele conta que recebe elogios de torcedores rivais todos os dias nas ruas. Além de ouvir preferencias de corintianos pelo Pacaembu ainda hoje, Andrés admite chateação ao ver torcedores do Timão que gostam menos dele do que os rivais.

“Todo dia, é isso que me deixa chateado. Alguns poucos corintianos me querem longe, muitos torcedores dos outros clubes me querem perto. É aquele choque que você tem. Mas também tenho certeza e consciência que a maioria dos corintianos sabe o que eu fiz, o que representei para o Corinthians e são agradecidos. Elogiam e estão sempre junto comigo, a maioria —a grande maioria. Eu não posso reclamar disso”.

“É óbvio que no momento em que o time tá mal, você sai vaiado, xingado. Faz parte do processo. No fundo, no fundo, não é o que ele sente. Tem que pedir desculpa ao torcedor corintiano por aquilo que eu errei, mas que ele tenha consciência que eu tentei fazer o melhor possível. E fiz muita coisa pelo clube”.

Lula corneteiro
Andrés falou, também, de sua relação com o ex-presidente Lula. O dirigente resumiu o petista como político e torcedor. “Ele liga de vez em quando reclamando do time. É um torcedor como todos. Toda vez que eu preciso, sinto saudade dele, eu ligo. Uma pessoa que tirou quase 40 milhões de pessoas da pobreza já foi um bom presidente. Como torcedor, ele é corneteiro como todo mundo. Como você, como todo mundo, entende? Aqui não tem um brasileiro que não entende de futebol. Não tem um”.

Ronaldo, parça e maior após Rivellino
Além de Lula, Andrés Sanchez é amigo de outra personalidade: Ronaldo Fenômeno, que, segundo o dirigente, se tornou corintiano após a sua passagem pelo clube entre 2009 e 2011. Ele foi anunciado em dezembro de 2008, estreou no ano seguinte e conquistou o Campeonato Paulista e Copa do Brasil. Ronaldo marcou 35 gols em 69 jogos antes de encerrar a carreira.

“Ele se prontificou a ajudar e se apaixonou pelo Corinthians. Hoje, é o time do coração dele. Temos que aproveitar que é uma grande pessoa, um grande fenômeno que temos, e tentar usar para o Corinthians da melhor maneira possível”.

Para Andrés, Ronaldo é o maior ídolo do Corinthians após Rivellino —lembrando que o clube teve, entre Rivellino e Ronaldo, nomes como Sócrates, Ronaldo, Neto e Marcelinho Carioca vestindo a camisa alvinegra. Questionado pela reportagem se ele tinha certeza do que está falando, o dirigente desafiou a fazer uma pesquisa com o torcedor para confirmar sua convicção.

“Faz uma enquete com o torcedor. O Ronaldo é um dos maiores ídolos da história do Corinthians, talvez seja o segundo maior jogador que passou na história do Corinthians. Acho que só perde para o Rivelino. Eu acho que o Rivelino foi o maior jogador. Depois do Rivelino, acho que o Ronaldo foi o maior jogador do Corinthians. É óbvio que o Cássio hoje é o maior ídolo, porque vai ganhar mais títulos, Marcelinho e outros. Mas de jogador, mundialmente falando, eu entendo que o Ronaldo e o Rivelino são os melhores que o Corinthians já teve”.

Muricy participou da decisão icônica de Andrés
Uma das passagens mais emblemáticas da história de Andrés Sanchez como presidente do Corinthians foi a “não demissão” de Tite após a queda da Copa Pré-Libertadores da 2011, diante do Tolima-COL. O Timão caiu com Ronaldo e Roberto Carlos em campo.

O que ninguém sabe é que Muricy Ramalho, técnico que nunca comandou o Corinthians e que fez história no São Paulo, tem participação nesta decisão que rendeu títulos a Tite e ao Corinthians nos anos seguintes.

Andrés confirmou uma apuração do UOL Esporte de que Muricy ligou para o presidente corintiano aconselhando-o a não demitir Tite. “É verdade. Ele era do meio, ele era do futebol, e me ligou. Como eu tenho amizade com ele, me ligou falando ‘não manda o Tite embora, se você mandar, você vai se arrepender'”.

 

Tite, o gestor
Andrés entende que Tite chegou ao topo, hoje representado pelo cargo de técnico da seleção brasileira, não somente pelo conhecimento tático. Na visão do dirigente, o treinador é um exímio gestor de pessoas.

“Treinador não é só taticamente. Taticamente, praticamente todos sabem mais ou menos o mesmo. Agora, gestão de pessoas… A gestão de um grupo de futebol, de pessoas de tudo quanto é nível, em que você tem que tomar cuidado, nisso o Tite é um grande gestor”.

“Eu acredito que o Tite, o Mano Menezes e o Muricy são grandes treinadores do Brasil. E hoje o Mancini também. Você pode ter certeza que ele vai chegar num patamar muito alto com a passagem dele no Corinthians”.